Muita gente no mercado imobiliário confunde dado com inteligência.

Há alguns meses venho estudando filosofia por conta própria, mais por curiosidade pessoal do que por qualquer plano de aplicar isso no trabalho. Uma das primeiras coisas que aprendi foi a origem da palavra: filosofia vem do grego e significa, literalmente, amor à sabedoria. Não amor ao conhecimento. Amor à sabedoria.

Essa distinção ficou martelando na minha cabeça por semanas, até eu perceber que ela explica um problema que vejo todos os dias no mercado imobiliário: a confusão entre ter dado e ter inteligência.

A palavra usada cedo demais

No mercado, inteligência virou sinônimo de qualquer número que aparece numa tela. Uma incorporadora vê quantas pessoas acessaram um material, quantas visitas o decorado teve, quantos cliques um anúncio gerou, e já chama isso de inteligência comercial.

Não é. É dado. E dado, sozinho, não decide nada.

Uso essa palavra cedo porque é exatamente o que acontece cedo demais nas operações que acompanho. A empresa capta um número, sente que está sendo orientada por dados, e para ali. O problema não é captar dado de menos. É achar que captar já é suficiente.

O caminho que o dado precisa percorrer

Existe uma sequência que separa dado bruto de decisão inteligente, e ela tem quatro etapas.

Dado é o registro isolado. Um cliente abriu o tour da vista às 22h. Um corretor compartilhou o decorado três vezes essa semana. Sozinhos, esses registros não dizem nada sobre a operação.

Informação é o dado organizado com contexto. Esse material foi aberto 40 vezes essa semana, contra 12 na semana anterior. Já é mais útil, mas ainda descreve o passado sem explicar por que ele aconteceu.

Conhecimento é o padrão que aparece quando se olha a informação ao longo do tempo. Clientes que recebem o material da vista nas primeiras 24 horas depois da visita fecham a compra em um ciclo mais curto do que os que recebem depois de uma semana. Isso já é entendimento real sobre como a operação funciona.

Sabedoria é o que acontece quando esse entendimento vira ação deliberada, repetida, incorporada à rotina do próximo lançamento. É o gestor comercial que muda o protocolo de envio de materiais porque aprendeu, com o lançamento anterior, que velocidade de entrega influencia velocidade de fechamento. E que consegue prever, com razoável confiança, o efeito dessa mudança no próximo ciclo.

Onde a maioria das operações para

A maior parte das incorporadoras e imobiliárias que converso já tem dado. Muitas já têm informação organizada em algum painel. Poucas têm conhecimento real sobre os padrões da própria operação. E raríssimas chegam à sabedoria, que é aplicar esse conhecimento de forma consistente e colher resultado previsível.

O problema é que a maioria para na segunda etapa e chama isso de quarta. Um painel bonito, com números atualizados em tempo real, dá a sensação de inteligência. Mas inteligência não é sobre ver o número. É sobre o que se faz depois de entender por que ele é aquele número.

Sabedoria é o que sobra depois que alguém aplica

Voltando à palavra grega. Filosofia não é amor ao dado, nem amor à informação, nem mesmo amor ao conhecimento puro. É amor à sabedoria, que só existe quando o conhecimento é aplicado com intenção e gera um resultado que se pode antecipar.

No mercado imobiliário, a tecnologia mais valiosa não é a que mostra mais números. É a que ajuda a completar esse caminho inteiro, do dado até a sabedoria aplicada, lançamento após lançamento, até que os resultados deixem de ser surpresa e passem a ser consequência esperada de uma operação que aprendeu a aprender com ela mesma.

Ter dado é fácil. Ter inteligência é raro. E a diferença entre as duas coisas não está na tecnologia que se usa. Está em quantos degraus dessa escada a operação realmente sobe.

 

Raymundo Sanches

CEO & Founder at RS TEK

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